sábado, 29 de agosto de 2015

9ª Primavera dos Museus

O tema Museus e Memórias Indígenas nos instiga a uma reflexão sobre a diversidade sociocultural dos mais de 200 povos indígenas que vivem em nosso país, constituindo-se como um dos maiores patrimônios existentes no território nacional. Eles estão representados em museus e outras instituições por meio de exemplares de sua cultura material, como utensílios e adornos de grande sofisticação e beleza estética, além de registros textuais e audiovisuais. 

Importantes ícones da construção da identidade nacional, os hábitos e a cosmogonia dos povos que habitavam este território antes mesmo da criação do Brasil foram documentados pela Arqueologia, História, Antropologia e Linguística, cujos registros estão presentes em diferentes instituições museológicas de nosso país e no exterior. Por muitos anos, a forma de representá-los os situava como pertencentes ao passado; não se vislumbrava que pudessem ter um futuro devido ao contato cada vez mais intenso com outros segmentos da sociedade nacional. Porém, na contramão dessa expectativa, os índios estão aí, presentes no cotidiano do país, com seus saberes, culturas, línguas, mitos, rituais, músicas. 

Na constante busca pela atualização e enriquecimento, museus históricos e etnográficos viram-se obrigados a renovar seu olhar e sua mensagem sobre esses povos e seus patrimônios culturais. Abandonar ideias estereotipadas e contribuir para a defesa dos direitos indígenas entrou na ordem do dia para essas instituições, que assumiram a luta contra o preconceito como eixo central de seus discursos. 

Nesse processo de transformações, as instituições museológicas têm passado a incorporar representantes indígenas no desenvolvimento de seu trabalho, fomentando que interfiram na construção de sua imagem. Em anos recentes, os indígenas têm se tornado parceiros em ações culturais como exposições, publicações, projetos educativos, vídeos e mostras fotográficas. Além disso, passaram a qualificar acervos esmaecidos pelo tempo, mas que lhes permitem um reencontro com patrimônios culturais de seus antepassados, atribuindo novos significados para seus povos e para a sociedade brasileira. Essa forma conjunta de se pensar e comunicar a rica diversidade sociocultural brasileira evidencia que os museus podem ser espaços de muitas vozes e olhares. 

Os povos indígenas sempre souberam guardar suas histórias e transmiti-las a novas gerações. Hoje, para preservar e difundir seus saberes, muitos lançam mão das novas tecnologias, como vídeos e fotografias digitais. O novo chega por meio de uma antiga instituição: os museus. 

Ademais, são inúmeras as etnias no Brasil que hoje constroem ou se preparam para construir seus próprios territórios museais como forma de se apropriar da fala sobre e para si. Tal esforço tem sido apoiado pelo Ministério da Cultura, Instituto Brasileiro de Museus, Museu do Índio/Fundação Nacional do Índio, órgãos estaduais e municipais de cultura e organizações não governamentais. Podemos citar como exemplos de instituições que contribuem para redefinir o próprio conceito de museu e evidenciar a importância da diversidade sociocultural e da promoção do diálogo intercultural o Museu Maguta (dos Ticuna, em Benjamim Constant/AM), o Museu Kuahi (dos Palikur, Karipuna, Galibi e Galibi Marworno, no Oiapoque/AP), o Museu dos Kanindé (em Aratuba/CE), entre outros. Mais do que um lugar de preservação da memória e de formação de pesquisadores indígenas, estas instituições surgem como estratégia eficaz de inserção de suas populações no mundo contemporâneo.

A parceria realizada com indígenas é uma das mais importantes iniciativas na construção de uma sociedade inclusiva e democrática. A preservação, a exibição e o estudo desse rico patrimônio cultural, que nos permitem desconstruir preconceitos, são hoje temas presentes nas demandas de várias etnias, estando ao lado de tópicos como saúde, educação e proteção ambiental e territorial. E, nesse âmbito, os museus podem e devem ser um valioso aliado. 

A 9ª edição da Primavera dos Museus convida os brasileiros a um encontro com os patrimônios culturais indígenas. Que ele seja proveitoso, estimulante e criativo no sentido de abrir novas interpretações e visões sobre a nossa rica diversidade étnica e cultural. Que o museu seja, como definiram os Ticuna, "um lugar para guardar nosso futuro, para colorir o pensamento, para segurar as coisas do mundo". 

Museu do Índio/ Fundação Nacional do Índio 
Instituto Brasileiro de Museus


Confira a Programação do Museu Casa Padre Toledo: