domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Policromia e o Douramento no século XVIII

O uso da policromia, as cores aplicadas na carnação e nas vestes, transmite um aspecto mais natural às figuras, além de dar maior significação iconográfica e simbológica. Outro processo utilizado era o douramento, que, além da ideia de riqueza pela matéria-prima utilizada, se encontrava associado profundamente a Deus. Desde o início dos trabalhos era exigido ao artista que fizesse tudo com grande temor a Deus.


(Foto 1) São Joaquim - Escultura em Madeira dourada e policromada - séc. XVIII
Origem: Portugal - Autoria: Anônima. 
Foto: Fabrício Fernandino - Museu Casa Padre Toledo

O trabalho se inicia com o primeiro e mais importante processo artesanal, a aplicação da base de preparação, conhecida também como aparelho, confeccionada com gesso e cola de boi. Qualquer irregularidade nesta etapa poderia comprometer o resultado estético, a perfeição técnica e a durabilidade do douramento e da pintura. A cola era vendida em tabletes e derretida em banho-maria até adquirir a aparência de “ponto de fio”. Após diluir o gesso em uma pequena quantidade de água, misturava-se a cola ainda quente e batia-se com uma colher até adquirir uma consistência homogênea. Esta base era aplicada em camadas, as primeiras e mais espessas, deveriam cobrir as eventuais falhas da madeira; as seguintes, mais diluídas, eram passadas a pincel observando se a camada anterior estava totalmente seca. Após a aplicação destas camadas, aguardava-se a secagem completa, pois a menor umidade poderia provocar a descamação do ouro e da pintura.
Realizada a preparação da peça, iniciava-se o processo de douramento. O ouro destinado a ser utilizado pelos douradores era preparado em folhas finíssimas e todo o processo tinha estreita vigilância. A sua venda era feita por milheiros, sendo cada milheiro constituído por dez livros e compondo-se cada livro por cem “pães de ouro”.


“Abre-se o livro na folha de ouro que será utilizada. Apóia-se a um canto do livro a ponta do polegar esquerdo e no outro canto o indicador direito; Coloca-se a parte livre sobre o coxim e vai-se deixando cair lentamente. Não respirar com força durante este procedimento para o ouro não voar (...) Para cortar o ouro, devidamente assentado no coxim, usa-se a faca com o corte perpendicular a folha; o indicador esquerdo apóia-se na extremidade da faca, e à mão direita puxa o cabo em movimento de como quem serra, mas muito suavemente.”
FREITAS, Maria Brak-Lamy Barjona, Manual do Dourador e Decorador de Livros – Ed. Lisboa, 1941



No século XVIII, era comum dourar toda a área das vestes das imagens para, sobre este ouro, aplicar a policromia. Já no século XIX, com a escassez do ouro, passa-se a dourar apenas área onde o ouro ficasse visível. Todo o processo de douramento era lento, e aos artistas não era permitido o abandono do trabalho sem que este estivesse concluído, nem assumir outros compromissos durante esse período, ficando vinculados à obra por tempo estipulado no contrato como garantia da boa execução.
A etapa seguinte é a aplicação da policromia sobre o douramento. A tinta era preparada misturando o pigmento, em pó ou em tabletes, com o aglutinante. Na pintura a óleo, o aglutinante era um óleo secante: óleo de linhaça, nozes ou papoula. Na pintura a têmpera o aglutinante poderia ser a cola animal ou ovo (ovo inteiro, clara ou gema do ovo). Ao aplicar a tinta sobre o douramento, passa-se à etapa da decoração: o esgrafiado e a pintura a pincel. O esgrafiado, de origem italiana, consiste em desenhos calcados com o esgrafito (espécie de estilete) na camada da tinta seca. Ao remover a tinta, a camada do ouro brunido aparecerá, evidenciando, assim, os ornamentos em formas de rendas. A pintura a pincel consiste em camadas de tinta aplicadas com pincel sobre a base de preparação nas áreas do panejamento, do douramento ou sobre o esgrafito.


Redação de Jackson Jardel dos Santos (Coordenador da Ação Educativa Museu Casa Padre Toledo).

Bibliografia: