terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Relíquia do Barroco

Em Novembro de 1814 morre Antônio Francisco Lisboa, conhecido pela alcunha de Mestre Aleijadinho. Mestiço e autor de inúmeras obras e projetos em madeira e pedra sabão de caráter devocional. Passados 200 anos de sua morte, Aleijadinho mostra-se para além de um artífice tornando-se um referencial da arte e do barroco mineiro.

(Foto 1) O chamado retrato oficial trata-se de óleo sobre pergaminho, feito no século XIX por Euclásio Penna Ventura. O quadro, na verdade um ex-voto, medindo 20cm por 30cm, pertenceu à Casa dos Milagres de Congonhas e mostra um homem mulato bem vestido. O registro do rosto de Aleijadinho está sujeito a polêmica a anos.
Imagem extraída de:
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/46,61/2014/11/16/internas_viver,543056/minas-gerais-lembra-os-200-anos-da-morte-de-aleijadinho.shtml
  
Vale dizer que o barroco mineiro e mais tarde o rococó, aflorada na segunda metade do século dezoito, foi erigida de acordo com o espírito religioso inerente à sociedade de então. Foi este o estilo considerado, na década de 20, pelos modernistas, o estilo legitimamente brasileiro.
Um destes modernistas, Mário de Andrade, viajando o interior do Brasil encontra em obras de Aleijadinho "uma arte genuína" que segundo ele “teria se desenvolvido em Minas graças ao isolamento e distância das cidades mineiras em relação aos centros litorâneos. Sendo um meio geográfico de difícil acesso, pôde germinar nas terras mineiras a mais característica arte religiosa do Brasil.”
A partir da década de 1920, acentuam-se os estudos sobre o barroco mineiro e, sobretudo os de Aleijadinho. Nestes inúmeros estudos, a história de Aleijadinho é cercada mistérios e incertezas. Em todos eles, porém, o talento e magnificência em seus traços são inquestionáveis. Toda sua obra, entre talha, projetos arquitetônicos, relevos e estatuária, foi realizada em Minas Gerais, nas cidades de Ouro Preto, Sabará, Congonhas, Caeté, São João del-Rei e Tiradentes.

(Foto 2) Aleijadinho (atribuição): detalhe do projeto para o frontispício da Igreja de São Francisco em São João del-Rei
Imagem extraída de:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_S%C3%A3o_Francisco_de_Assis_%28S%C3%A3o_Jo%C3%A3o_del-Rei%29

          Em muitas cidades Aleijadinho fizera apenas o projeto e nem sempre o executava. Um exemplo é a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, localizada em São João Del Rei, que possuí em seu frontispício os traços do artista que em 1774 recebe a encomenda do projeto da igreja São Francisco de Assis onde se inclui o risco da portada principal, proposta que mereceu aprovação da Irmandade de Ordem Terceira, em colaboração com Francisco Lima Cerqueira.

"O projeto elaborado pelo Aleijadinho em 1774 para a fachada da igreja de São Francisco de São João del-Rei, que se situa na mesma linha evolutiva do Carmo de Ouro Preto, teria vindo a caracterizar, se executado, a mais genuinamente rococó das fachadas religiosas mineiras.... o risco, felizmente conservado, um belo e minucioso desenho em bico-de-pena com marcação dos volumes em sombreado, dá uma ideia bastante precisa do pensamento original do autor. As elegantes torres chanfradas e ligeiramente arredondadas enquadram um frontispício levemente sinuoso como o da igreja do Carmo, tendo desenho semelhante ao dessa igreja, com o mesmo coroamento em forma de sino, em tratamento mais evoluído. Outras semelhanças podem ser detectadas no desenho ornamental da portada e das molduras das janelas, diferindo, entretanto, o modelo do óculo e do frontão, ladeado de vigorosas rocalhas chamejantes, que impulsionam visualmente para o alto o relevo escultórico central com a cena da visão de São Francisco no Monte Alverne". (MIRANDA)


          Seja no projeto ou na execução, Aleijadinho é ainda um fascínio para muitos historiadores e artistas e tornou-se uma atração turística que propicia uma dupla função: relíquias do barroco e um produto cultural para serem distribuídos como uma forma de experiência e interação entre as várias pessoas que as visualizam e seu patrimônio.


Redação de Ariela Marques Síria (graduanda em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei).

Bibliografia:

NATAL, Caion Meneguello. Mário de Andrade em Minas Gerais: em busca das origens históricas e artísticas da nação. Dossiê: História Comparada  – Artigo n. 13,  2007;

ALBANO, Celina. O sentido da interpretação nas cidades do ouro: São João Del Rei e Tiradentes in Interpretar o patrimônio: um exercício do olhar. Belo Horizonte, editora UFMG, 2002;

MIRANDA, Selma Melo. Nos bastidores da Arquitetura do Ouro: Aspectos da produção da Arquitetura Religiosa no século XVIII em Minas Gerais. Actas del III Congreso Internacional del Barroco Americano: Territorio, Arte, Espacio y Sociedad. Universidade Pablo de Olavide, Sevilha;


Museu Aleijadinho – Disponível em http://www.museualeijadinho.com.br/