terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A Capoeira e o Dia da Consciência Negra

Fusão de luta, dança, esporte e arte, a capoeira legitimou-se como um dos mais expressivos símbolos da cultura brasileira. É em meio ao batuque do berimbau e o diálogo dos corpos, que confirma-se a tradição e consagram-se os valores africanos, figurando a luta como um importante instrumento de resistência cultural dos escravos negros.
O termo Capoeira na sua origem Tupi-Guarani significa “mato novo”, “o mato que cresce depois do desmatamento, aludindo aos locais onde os escravos provavelmente praticavam a luta.  A luta atualmente é considerada genuinamente brasileira. Suas raízes são fundamentadas nos duelos praticados pelos escravos da etnia banto, que habitavam a região da África Austral, onde atualmente localiza-se a Angola.
Desenvolvida a quase cinco séculos no Brasil, constituiu-se por meio de diversas expressões e influências culturais. Consiste basicamente por movimentos de ataque e defesa, em uma união de golpes, musica, ginga e malícia. 

(Foto 1) "Jogar Capoeira" ou "Danse de la Guerre", de Johann Moritz Rugendas
Imagem extraída dehttp://bibliotecadacapoeira.blogspot.com.br/2011/05/colecao-brasiliana-itau.html

A capoeira é a única modalidade de luta marcial que se faz acompanhada por instrumentos musicais. A bateria geralmente é composta pelo berimbau, o pandeiro, o atabaque, o agogô e o reco-reco. Sendo o berimbau o principal instrumento, é ele que dá ritmo ao jogo e cada um de seus toques possui uma finalidade específica.
A organização dos praticantes em roda, pode ser entendida tanto pelo uso funcional, quanto pela simbologia da forma geométrica. O círculo é uma forma de equilibrar e harmonizar as energias presentes, e também de assegurar que nenhum ponto seja privilegiado em questão de visão ou participação.
A capoeira pode ser dividida em duas categorias: angola e regional, sendo a primeira o modelo mais praticado nas escolas e academias da região. Na capoeira denominada angola, os movimentos são mais lentos e rentes ao chão, caracteriza-se pelo jogo do “vai-não-vai”, onde raramente um adversário acerta o outro. Já a capoeira regional, destaca-se pelo dinamismo. Os gestos são mais rápidos e é jogada em pé, apresenta movimentos mais acrobáticos e tem regras específicas, elementos que o aproximam mais de um esporte.

(Foto 2) Aula de Capoeira no Museu Casa Padre Toledo

A luta disfarçada de dança, além de resguardar a cultura do povo africano, também foi um importante mecanismo de resistência à opressão sofrida pelos escravos no período colonial. Convinha como defesa nas fugas e também era utilizada para defender os quilombos quando os capitães do mato descobriam sua localização. 
A prática da capoeira foi proibida até os anos de 1930, quando o presidente Getúlio Vargas a transformou em um esporte nacional brasileiro. A primeira academia do esporte surgiu dois anos mais tarde, no ano de 1932, sob o comando de mestre Bimba, no Engenho Velho de Botas. Desde então a capoeira vem sendo difundida e ganhando cada vez mais praticantes.
Muitos colégios aderiram a prática da capoeira como atividade extracurricular para os alunos. Além de aproximar estes estudantes de um contexto sócio-cultural real, é um importante mecanismo pedagógico. Coloca o aluno em contato com a verdadeira cultura e a identidade do país; ajudando-o a desenvolver a criatividade, ajuda na boa relação com os colegas e melhora a coordenação motora.


(Fotos 3 e 4) Aula de Capoeira no Museu Casa Padre Toledo com os alunos da Escola Municipal Marília de Dirceu (Tiradentes) e escolas visitantes de outras cidades

Em 2008 a capoeira foi reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural Brasileiro e recentemente, no dia 26 de Novembro, recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
O mérito do título é uma conquista não só para o esporte, que é praticado em mais de 160 países, mas para a própria cultura brasileira.
A luta que durante muito tempo foi descriminada, ganha visibilidade internacional e ganha políticas públicas para cuidar e garantir sua preservação e valorização.
Segundo o Ministério da Cultura, o Iphan deu apoio aos capoeiristas para fazer amplo inventário dos grandes grupos de capoeira e mestres no Brasil e ajudou-os a instalar comitês estaduais distribuídos pelo país. Neles, capoeiristas podem formular reivindicações e compromissos relacionados à salvaguarda e à promoção dessa manifestação cultural.
No dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, aconteceu uma Aula de Capoeira com o Mestre Prego, da cidade de Tiradentes, no Museu Casa Padre Toledo. Com muita ginga e musicalidade, voltamos às raízes de nossa cultura para reverenciar os negros escravizados que utilizaram este importante instrumento como resistência física e cultural.


Redação de Nayara Oliveira (graduanda em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal de São João Del-Rei).