sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Santo Inquisidor: a imagem de São Pedro Mártir no Brasil

Ao entrar na alcova da Casa de Padre Toledo nos deparamos com uma escultura em madeira, policromada, marcante pela representação das vestes de um missionário que tem na mão um livro e no alto das orelhas a marca do sangue que escorre de sua cabeça. A expressão de seu rosto, porém, é serena. A descrição da peça instiga a curiosidade: quem teria sido São Pedro Mártir? Este texto tem por objetivo trazer algumas reflexões breves sobre a figura pública de Pedro de Verona, o santo inquisidor.
Pedro viveu na cidade de Verona, norte da península itálica, na primeira metade do século XIII, quando ainda havia muitas rivalidades e disputas políticas, principalmente, entre o Papado, o Sacro Império Romano Germânico e as cidades italianas. Devido ao grande número de heresias nesta região, era de interesse da Igreja aumentar sua influência sobre aquele povo, combatendo assim o mal provocado pelas práticas pagãs.


São Pedro Mártir - século XVIII - Autoria anônima
Escultura em madeira policromada - Museu Casa Padre Toledo
Origem: Bahia - Foto: Fabrício Fernandino

Mesmo Pedro de Verona, dominicano e inquisidor, havia nascido numa família herética. Ele dedicou seus esforços diretamente no combate às práticas que não estavam de acordo com a fé católica, e por esse motivo, foi perseguido. Durante uma viagem, Pedro foi pego em uma emboscada e assassinado por um sicário, que teria sido contratado por um grupo de hereges. Segundo a tradição, Pedro recebeu um golpe na cabeça e, vendo-se ferido, teria escrito com o próprio sangue no chão: “creio em Deus”. Junto com Pedro estava outro dominicano que também foi agredido, o que levou à sua morte dias depois.
Assim, começa a história do santo e mártir da Inquisição que influenciou o surgimento de irmandades e foi durante muito tempo celebrado como forma de enfrentar os desvios da fé. Segundo Carlos Cavalcanti, foi durante o início do século XVII que cresceu o número de confrarias dedicadas a São Pedro Mártir. Na Espanha e em Portugal este aumento teve como motivação algumas conquistas dos cristãos-novos (como o perdão do Papa e a autorização para sair da Espanha) e uma reação dos inquisidores, temerosos de que tal medida levasse ao enfraquecimento do poder do Tribunal.
Assim, São Pedro Mártir, morto em 6 de abril de 1252, canonizado em 9 de março 1253, inquisidor que atuou no Tribunal do Santo Ofício medieval, passa a ter grande importância na manutenção da imagem do Tribunal inquisitorial na Idade Moderna. A utilização da imagem de Pedro Mártir nos séculos XVII e XVIII sinalizam a necessidade de reafirmar o poder da inquisição, que neste momento disputava espaço com outras autoridades. 
A escultura de São Pedro Mártir no Museu Casa Padre Toledo é uma peça de autoria anônima, do século XVIII, e sua origem é o estado da Bahia. A importância da celebração de São Pedro Mártir no Arcebispado da Bahia nos séculos XVII e XVIII se justifica pelo clima de maus comportamentos na sociedade e pela atuação dos agentes inquisitoriais. Segundo Bruno Feitler, entre 1683 e 1704 foram feitas 108 nomeações na região para cargos do Tribunal do Santo Ofício e foi em 1697 que organizou-se pela primeira vez celebração festiva em honra a São Pedro Mártir, padroeiro dos oficiais do Tribuna do Santo Ofício.
Dessa forma, podemos concluir que a valorização da imagem de São Pedro Mártir também chegou ao Brasil. Não tivemos o Tribunal do Santo Ofício instalado na colônia, mas muitas das práticas do Velho Mundo estiveram presentes no cotidiano dos colonos na América Portuguesa.

*Redação de Giselly Kristina Muniz de Souza (graduanda em História pela UFSJ) e revisão de Jardel Santos (coordenador da Ação Educativa Museu Casa Padre Toledo).


Referências bibliográficas:

CAVALCANTI, Carlos André Macêdo. A Teoria do Imaginário na pesquisa de símbolos e iconografias da Inquisição: apoio multidisciplinar no ofício do historiador das religiões. Simpósio Internacional de Estudos Inquisitoriais – Salvador, agosto 2011. Disponível em: <http://goo.gl/fUVMA2>. Acesso: 28 de outubro de 2014.

CRUZ JÚNIOR, André Caruso; OLIVEIRA, André Rocha de. Hagiografia, Heresia e Cidade: uma proposta de estudo a partir da “Vida de São Pedro Mártir” presente na Legenda Áurea. Revista do CFCH, Universidade Federal do Rio de Janeiro, edição especial, agosto 2014. Disponível em: <www.cfch.ufrj.br>. Acesso: 28 de outubro de 2014.

FEITLER, Bruno. A sinagoga desenganada: um tratado antijudaico no Brasil do começo do século XVIII. Revista de História 148 (1º - 2003), 103-124. Disponível em:
<http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/18955/21018>. Acesso: 28 de outubro de 2014.