terça-feira, 1 de julho de 2014

Processo de Restauração dos Forros da Casa do Padre Toledo

A restauração é um conjunto de atividades que visa restabelecer danos decorrentes da ação do tempo em um bem. No Brasil, surgiu com maior incidência durante a primeira metade do século XX, no período conhecido como Modernismo, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) no ano de 1937. Entretanto, a noção de preservação já existia anteriormente, mesmo que de maneira menos relevante, pois a memória era voltada, sobretudo, para as obras produzidas durante o Renascimento (CHOAY, 2001). No entanto, a preservação vinculada à salvaguarda da história coletiva só começou a se consolidar durante o século XX, mais especificamente com a elaboração da Carta de Atenas, produto do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM) (CHOAY, 2001).

Dessa forma, o patrimônio artístico e arquitetônico, ligado ao passado, passa a ser preservado e restaurado a fim de torná-lo parte do presente. Algumas estratégias como o tombamento, o registro e a necessidade de documentação fizeram-se necessárias para essa tarefa e, por isso, os primeiros monumentos contemplados foram aqueles que se encontravam em um pior estado de conservação. Nesse caso, aqueles considerados com excepcional importância histórica, artística e cultural para o país.

Um dos principais impasses identificados na época foram os elementos decorativos das edificações, pois geralmente apresentavam uma série de detalhes que requeriam estudos específicos e interdisciplinares para sua recuperação. Como exemplo, podemos citar o caso específico de forros pintados em madeira que surgiram na Península Ibérica e foram difundidos para os principais países da Europa. No Brasil, sua prática está relacionada à influência da metrópole no período colonial e à abundância da matéria prima aqui encontrada.

Em Minas Gerais, lugar de concentração de grande parte desse acervo histórico, vários monumentos como igrejas e edificações nobres recorreram a intervenções de restauração para sua conservação. Um desses casos se encontra em Tiradentes, na antiga casa do vigário e inconfidente Carlos Côrrea de Toledo e Melo (Foto 1), residência que serviu de palco às primeiras reuniões da Conjuração. Além de importante exemplar da arquitetura colonial residencial, o solar também abriga um rico acervo de bens artísticos integrados à edificação: o conjunto de oito forros pintados em estilo Rococó. Provavelmente pintados na segunda metade do século XVIII, apresentavam danos causados pela penetração de águas pluviais e pelo ataque de insetos xilófagos. Percebendo o risco de perder este acervo, a Fundação Rodrigo de Mello Franco Andrade assumiu a restauração e posterior utilização da edificação como museu.


Foto 1: Imagem da primeira reforma da casa do Padre Toledo
(década de 1940), que possibilitou o tombamento do edifício
uma década depois. Foto: Edílson Santos, acervo pessoal.

A mais recente restauração artística e arquitetônica da casa começou no ano de 2010 quando, com o apoio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com o projeto do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (CECOR) da Escola de Belas Artes da UFMG, foi possível a recuperação dos forros deteriorados. Todo o processo teve como embasamento a teoria contemporânea de restauro crítico-criativo de Césare Brandi que encerra várias diretrizes de subsídio à intervenção (BRANDI, 2004).

No processo de restauração é necessário que o profissional responsável interfira minimamente no bem integrado, mas, dependendo das circunstâncias é necessário que o forro seja desmontado parcialmente ou totalmente para ser manuseado com segurança. Na residência em pauta, devido à instabilidade estrutural que dava suporte aos forros, algumas tábuas precisaram ser desmontadas e, em outros pontos, foi feita a reconsolidação dessas e das cimalhas por meio de tirantes de ferro.

Foi realizada também uma limpeza mecânica nas tábuas que possuíam em sua parte posterior alguns resíduos que comprometiam a conservação dos forros decorados como: entulhos, sujidades, pregos, pedaços de telha, dentre outros agentes deteriorantes. A limpeza foi efetuada com escovas de aço, aspirador de pó e trinchas. Após a limpeza superficial, foi feita a desinfestação dos insetos xilófagos através de produtos químicos específicos e bomba aspersora.


Imagem da remoção da cimalha de um dos Forros.
Foto: Edílson Santos, acervo pessoal.

Em análises prévias, foram feitos estudos minuciosos sobre as causas da deterioração dos forros e posteriormente, algumas amostras da pintura foram retiradas para identificação das técnicas utilizadas. Esse procedimento é realizado por meio de métodos físico-químicos que permitem distinguir as camadas de tinta originais e as possíveis intervenções posteriores. Na casa Padre Toledo, as diversas camadas de tinta mostraram suas diferentes épocas tendo sofrido várias reformas desde sua construção. Após análises, constatou-se que as pinturas originais foram feitas na técnica de “Têmpera a Cola”.

A partir daí, foi feita uma limpeza utilizando pincéis de cerdas macias e vários testes de solventes para a remoção das repinturas. Escolhido o Citrato de Sódio a 2,5% em água e utilizando o bisturi em algumas partes, a limpeza química foi realizada retirando as camadas de tinta mais recentes, priorizando o traçado original. Posteriormente, realizou-se o nivelamento das tábuas utilizando uma mistura de microesferas, serragem de madeira, PVA e água prensada por uma folha de cortiça. Como acabamento, as pranchas foram lixadas.


Imagem do restauro artístico dos forros.
Foto: Edílson Santos, acervo pessoal.

Para reconsolidar as pinturas, inicialmente foi aplicada uma camada de dois tipos de álcool (polivinílico e etílico) com água e, posteriormente, foi feita a reintegração cromática com tinta guache utilizando a técnica do pontilismo e ilusionismo. A primeira utiliza-se de pontos que, pela justaposição, provoca uma ilusão ótica no observador ao contemplar a imagem, e a segunda é restituição fiel da pintura, dificultando a distinguibilidade das diferentes épocas em que foram executadas. Por fim, para a proteção das pinturas restauradas foi aplicado um produto estável e incolor para acabamento.

Durante o processo de restauração, primou-se por manter a pátina, sendo restituídos somente os traços que interfeririam na parte estética do conjunto artístico. Com isso, o processo de restauração da Casa Padre Toledo sucedeu-se respeitando as recomendações da Teoria de Brandi e possibilitou, no seu uso como museu, a visitação e a manutenção de um edifício que traz à memória coletiva a herança do período setecentista.

Redação de Andressa Ferreira Pinto (graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de São João Del-Rei) e revisado por Alisson Silveira Souza (graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de São João Del-Rei) e Rafael Augusto Gomes (graduando em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei).

BIBLIOGRAFIA


CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: UNESP, 2001.

DANGELO, André Guilherme Dornelles; CUNHA, Alexandre Mendes; FIGUEIRA, Rodrigo Minelli. Museu Casa Padre Toledo. Memória da Restauração Artística e Arquitetônica. Tiradentes, 2012.

BRANDI, Cesare. Teoria da Restauração. Cotia: Ateliê Editorial, 2004.

RAMOS, Adriano Reis; SILVA, Carla de Castro. FORROS DECORADOS SOBRE MADEIRA, CONFECÇÃO E RESTAURO. Disponível em: http://www.grupooficinaderestauro.com.br/publicacoes/forros-decorados-sobre-madeira-confeccao-e-restauro.html, acessado em 28 de junho de 2014.