terça-feira, 1 de julho de 2014

O espaço de rezar na casa brasileira do século XVIII

A casa onde morou o paulista, de Taubaté, e inconfidente Padre Toledo, pode ser entendida como um espaço onde três “atividades do cotidiano” do século XVIII estavam bem definidas, a exemplo da arquitetura paulista do período (fotos 1). Essas atividades eram: o convívio com estranhos, a intimidade doméstica e o trabalho caseiro, especialmente o culinário. Estas funções são visivelmente definidas dentro da residência pela disposição dos cômodos e pela presença dos forros pintados em alguns ambientes em detrimento de outros.


Foto 1: Casa do Padre Inácio, Cotia SP, c. 1753
Foto Victor Hugo Mori
Baseados neste cotidiano setecentista percebemos que o espaço destinado ao convívio com estranhos na casa do Padre Toledo, foi subdividido em uma sala de receber, um cômodo de apoio a viajantes e a uma capela, ou oratório. Falemos sobre esta característica que é a presença da capela no interior da casa.

A presença da capela na casa brasileira teve inspiração na casa nobre portuguesa, e começou a aparecer no século XVII. No Brasil, as grandes distâncias entre as propriedades rurais e o meio urbano eram responsáveis pela presença, quase obrigatória, das capelas nas residências rurais para uso da família. Família esta que só se deslocava para a cidade em datas importantes, especialmente as religiosas. A partir do século XVIII, esta capela, que era localizada no interior da casa, vai ficando mais independente e começa a ser instalada nas proximidades da residência (foto 2).


Foto 2: Sítio Santo Antônio - SP, segunda fase das intervenções, década 1960
Foto Herman (Germano) Graeser (Iphan 9ª SR/SP – Acervo Arquivo Fotográfico)
Originalmente possuía oratório interno, mas em 1681 foi dada provisão para a
construção da capela



No meio urbano, como a Vila de São José Del-Rei, atual Tiradentes, a existência de capelas no interior da casa não tinha uma função muito lógica, uma vez que a comunidade não apresentava as mesmas características da rural e também pelo fato de a Igreja ter uma presença mais predominante. Ainda assim, os núcleos urbanos de Minas Gerais têm residências, do período setecentista, onde é possível observar estas capelas anexas. Um exemplo é a atual sede da Prefeitura de Sabará, conhecida como Solar Padre Corrêa (foto 3). A construção de 1773 pertenceu ao Padre José Corrêa da Silva e possui capela interna, no estilo rococó. Outra edificação do século XVIII, também em Sabará, é a Casa Azul. Assim como na Casa do Padre Toledo, a sala-capela da Casa Azul também tem o forro decorado.


Foto 3: Solar Padre Corrêa - Atual sede da
Prefeitura de Sabará. Foto: Marco Antônio

As capelas internas, geralmente eram destinadas aos familiares sendo, por isso, mais particulares. Basicamente existiam dois tipos de capelas internas: uma que está voltada para uma área mais íntima da casa, com acesso restrito aos familiares, e outra que pode ser acessada através do saguão ou da sala de visitas, como se apresenta na Casa do Padre Toledo.

A predominância do sagrado no espaço urbano é facilmente verificada pelo número de elementos religiosos nas ruas e largos das cidades coloniais. Encontramos nichos, cruzes e outros elementos de simbologia na paisagem urbana como a “capelinha dos passos”, que é utilizado para marcar os passos da Via Sacra na quaresma, e como oratório nos demais dias. A religiosidade colonial tem ainda outro elemento que é o culto aos santos e a Nossa Senhora, manifestando-se no espaço físico da casa, seja ela urbana ou rural, através do local próprio para a oração.

A capela da casa-grande e, mais tarde, a da residência urbana, representou, no período colonial, a força da religião no Brasil que utilizou a fé como instrumento de manutenção da ordem social.

Redação de Jackson Jardel dos Santos (graduado em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei)

Carlos A. C. Lemos. Casa paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São Paulo, EDUSP, 1999, 264 pp.

Domingos Sávio de Castro Oliveira. Capela Pombo, Belém PA: interpretação e perspectivas. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 109.05, Vitruvius, jun. 2009
<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.109/48>.

Ana de Lourdes Ribeiro da Costa. A Igreja Católica e a configuração do espaço físico dos núcleos urbanos coloniais brasileiros .
<http://www.portalseer.ufba.br/index.php/ppgau/article/viewFile/2634/1856>