domingo, 1 de junho de 2014

O Rococó e o Museu Casa Padre Toledo

O Rococó foi um movimento estético que apareceu na França no fim do século XVII e se desenvolveu ao longo do século XVIII. Após migrar para a América, sobreviveu em algumas regiões até meados do século XIX. Seu nome advém da palavra rocaille, que em Francês quer dizer concha. rocalha e a voluta são os elementos mais importantes desse estilo, que faz de ambos seus "protagonistas".


(FOTO 1) Teto da sala dos Espelhos. Neste teto do Museu Casa Padre Toledo,
em Tiradentes-MG, 
podemos observar as rocalhas (formas de concha)
e as volutas (voltas em forma de "C" e "S"), elementos centrais no rococó.

Foto: Andressa Ferreira.

Também conhecido como o "estilo da luz", devido aos seus edifícios com amplas aberturas e sua relação com o século XVIII, o Rococó nasce como uma reação da aristocracia francesa contra o Barroco suntuoso, palaciano e solene praticado no período de Luís XIVEnquanto século revolucionário, o século XVIII marcou a ascensão da burguesia sobre a nobreza. Surgiu, nesse contexto, "uma necessidade de redimensionamento do espaço da alta burguesia e da nobreza" (KLAUSING, 2004).

Os burgueses necessitavam de um estilo artístico que afirmasse seus próprios valores. Assim, opõem a temática mundana do Rococó à forte religiosidade barroca: os personagens populares do catolicismo perdem espaço para os membros da aristocracia. A jovialidade e a edificação do prazer, o tédio e a melancolia são os estados emocionais que geralmente contextualizam os quadros do rococó. Mas, apesar de inicialmente hedonista, ao alcançar países como Portugal e Espanha, o rococó penetra também a esfera religiosa, como demonstra Myriam Ribeiro Oliveira em seu livro O Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus (2003).


(FOTO 2) Escultura rococó de madeira do século XIX intitulada "O Salvador".
A peça exposta temporariamente no Museu Casa Padre Toledo, de Tiradentes-MG,
pertence à Coleção Brasiliana da Universidade Federal de Minas Gerais. 
Foto: Andressa Ferreira.

No Museu Casa Padre Toledo, antiga residência do padre e inconfidente Carlos Corrêa de Toledo e Melo situado em Tiradentes-MG, é possível encontrar várias características do Rococó. O museu possui um conjunto de forros pintados no estilo. Eles demonstram sua ornamentação básica, com rocalhas e volutas pintadas (Foto 1), e também temas hedonistas, que retratam a possibilidade de felicidade no mundo, experimentada através do uso da razão (Foto 3).

(Foto 3) Teto da sala dos cinco sentidos, no Museu Casa Padre Toledo em Tiradentes-MG. Cada plano representa um sentido, ilustrado com personagens da cultura greco-romana, tema essencialmente hedonista, ou seja, voltado aos prazeres do mundo, em uma concepção de prazer ligada à noção de felicidade.
Imagem extraída de: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2012/12/05/museu-restaurado-477681.asp

Mas o fato de ser racionalista não impediu rococó de se conciliar com a religião. Apesar de ter sua origem no campo civil ele seu adaptou à esfera religiosa, mesmo levando em conta os valores mais importantes do setecentos. Isso porque durante a ilustração, até mesmo "a fé cristã passou por uma mudança de concepção, tornando-se mais serena e positiva" (KLAUSING, 2004)No caso brasileiro, herdeiro da tradição católica portuguesa e pensado aqui através da figura do Padre Toledo, não foi diferente. Toledo conciliou os ideais de prazer e felicidade do rococó e do século XVIII com sua visão religiosa.

Notavelmente culto e maleável, influenciado pelos ideais ilustrados não só enquanto inconfidente, mas também enquanto homem, o Padre Toledo encomendou a pintura dos forros de sua casa no estilo rococó, como retratou Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência (1953). Toledo representa ao mesmo tempo, mas não paradoxalmente, a religiosidade e a ilustração dos setecentos. A história de Toledo, homem de ofício religioso, demonstra como no Brasil do século XVIII a religião e o racionalismo se relacionaram. Demonstra também como o estudo da vida do padre pode nos ajudar a compreender, entre outras coisas, as mentalidades ilustradas do século XVIII.

Redação de Rafael Augusto Gomes (graduando em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei) e revisão de Jardel Santos (coordenador da Ação Educativa Museu Casa Padre Toledo).

Bibliografia:

KLAUSING, Flávia Gervásio. "OLIVEIRA, Myriam Ribeiro. O Rococó religioso no Brasil e seus antecedentes europeus. São Paulo: Cosac & Naify, 2003." Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/varia/admin/pdfs/31p278.pdf, acessado em 01/06/2014. VARIA HISTORIA, nº 31. Janeiro, 2004.

MARTINS, Simone R.; IMBROISI, Margaret H. Rococó. Disponível em: http://www.historiadaarte.com.br/linha/rococo.html, acessado em 01/06/2014.

SOUZA, Rainer. Rococó. Disponível em: http://www.brasilescola.com/historiag/rococo.htm, acessado em 01/06/2014.