sexta-feira, 2 de maio de 2014

Padre Toledo e Cônego Vieira: A participação do Clero na Inconfidência Mineira

A vida privada de homens e mulheres no Brasil colonial sempre foi marcada pela interferência religiosa. A hegemonia católica na colônia era essencial tanto para a unidade do reino português quanto para a própria supremacia da Igreja, daí a perseguição de outras formas de crença que não a católica. Contudo, falar sobre a religiosidade no Brasil do século XVIII, considerado o século das luzes e da Inconfidência Mineira (1789), não exclui outras ideias ou formas menos conservadoras de se pensar. Por aqui, fé e racionalismo conviveram e se misturaram a partir do século XVIII, e enxergá-los como elementos antagônicos dificulta sua compreensão.

Os ideais da Ilustração europeia do século XVIII penetraram a colônia e também seu Clero no mesmo período, como demonstram as histórias do Cônego Luís Vieira da Silva e do padre Carlos Corrêa de Toledo e Melo. Os dois eclesiásticos, influenciados pela filosofia liberal setecentista participaram da Inconfidência Mineira atuando como dois dos principais intelectuais do movimento. Eles utilizaram obras e temas pertinentes para as causas liberais da Inconfidência, agindo em prol de seus interesses e convicções, ou seja, contra a tributação do Estado absolutista e "despótico" português.

O Cônego Vieira, por exemplo, era uma das pessoas mais ilustradas do Brasil. Como indicam os estudos sobre sua biblioteca, gigantesca para os padrões da época, Vieira era um assíduo leitor da ilustração europeia, principalmente de autores tidos como subversivos, portanto proibidos pela Igreja através do Index Librorum Prohibitorum (uma lista de publicações literárias proibidas pela Igreja Católica):

“Sua biblioteca, bastante vasta para os padrões da época, compreendia 270 obras, em um total de 800 volumes, dentre os quais se incluíam dois tomos da Encyclopedic, as Observations sur le Gouvernement des États Unis de l'Amérique de Mably, L'Esprit des lois de Montesquieu, a tradução francesa de The History of America de Robertson, livros de Voltaire, Marmontel, B. de Saint-Pierre, Condillac, Lafitau, além de diversos volumes de teologia, direito canônico e historia eclesiástica. O cônego possuía ainda obras representativas das Luzes ibéricas, como O Verdadeiro Método de Estudar de Verney e o Teatro Crítico Universal do Padre Feijo” (VENTURA, 1988).


O padre Toledo também sofreu grande influência do Iluminismo. No período em que estudou em Portugal, entrou em contato com os ideais empíricos que mais tarde o fariam pintar os cinco sentidos no teto de sua casa em Tiradentes (Foto 1), onde hoje funciona o Museu Casa Padre Toledo. Toledo também possuía uma biblioteca considerável, que apesar de menor que a de Vieira (padre que o antecedeu na paróquia da Vila de São José-Del Rei, atual Tiradentes), continha volumes também polêmicos.

(Foto 1) Teto da sala dos cinco sentidos, no Museu Casa Padre Toledo em Tiradentes-MG. Cada plano representa um sentido ilustrado com personagens da cultura greco-romana. Não nos foi ainda possível identificar os grupos que representam a visão (plano direito) e a audição (plano superior). Os outros são: Tato (plano central) - Hermes e Afrodite; Olfato (plano esquerdo) - Eros e Psique; Paladar (plano inferior) - Dionísio e Ariadne.
Imagem extraída de: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2012/12/05/museu-restaurado-477681.asp

Mas, apesar de conspirarem contra a coroa e idealizarem uma revolução, tanto Vieira quando Toledo souberam conciliar razão e religião com seus interesses. Ambos os padres, como expoentes da Conjuração Mineira filtraram na ilustração as ideias liberais sem, no entanto, ameaçar em nenhum momento o papel de instituições tradicionais no novo Estado que surgiria. Importantes instituições da época, como a Igreja e a Escravidão, por exemplo, não seriam tocadas após o processo revolucionário. A pluralidade e a tolerância religiosa, tão comentadas e defendidas por Voltaire na França, por aqui não ocorreriam, e o catolicismo continuaria como religião oficial. A liberdade não se estenderia aos escravos, ainda vistos como propriedade pelos liberais revolucionários das Minas Gerais.

Assim, a história dos dois padres, homens de ofício religioso, demonstra como no Brasil do século XVIII a religião entrou em conflito com a Ilustração e ressignificou a mesma. Enquanto inconfidentes católicos, os padres conspiravam contra a Coroa portuguesa utilizando ideais racionalistas liberais e, ao mesmo tempo, continuavam suas práticas religiosas dogmáticas.

* Redação de Rafael Augusto Gomes (graduando em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei) e revisão de Jardel Santos (coordenador da Ação Educativa Museu Casa Padre Toledo).

Bibliografia:

VENTURA, Roberto. Leituras de Raynal e a ilustração na América Latina. Estud. av. [online]. 1988, vol.2, n.3, pp. 40-51. ISSN 0103-4014. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141988000300003&script=sci_arttext, acesso em 17/04/2014.

OLIVEIRA, Késia Rodrigues de. Um monstro nas minas ilustradas: O diabo na livraria do cônego. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/1790, acesso em 17/05/2014.